A Revolução de 1964


Este era o título de um pequeno texto presente na "Apostila do Atirador", um material de estudos destinado aos jovens que prestavam serviço militar obrigatório em 1996. Lá estava eu!
Quando li este título, logo pensei que se tratava de um esforço para mostrar de forma positiva o golpe dado no presidente João Goulart. É claro que a palavra revolução foi utilizada para denotar uma mudança pra melhor. Hoje, os defensores da ditadura falam de movimento de 1964.
Lembro-me também, que em uma das instruções um dos soldados perguntou ao sargento o que foi o atentado do Rio-Centro (?!?!?!?!?!!!!). É claro que o sargento desconversou com um certo riso, dizendo que não foi nada. Lembro-me que ele olhou para mim com o canto dos olhos... Eu com um gesto de cabeça demonstrei eu que sabia do que se tratava e que ele também. Bom, foi por isso ele me olhou com o canto dos olhos: ele sabia que eu sabia.
Minha experiência no exército foi positiva. Porém, ao ser recrutado, eu não pude ingressar na faculdade de História da USP. Tranquei a matrícula e comecei no ano seguinte.
Depois de um alguns semestres, tive o privilégio de estudar História Contemporânea com a querida professora Maria Aparecida de Aquino. Em uma das aulas, ela tratou do Rio-Centro analisando junto com os alunos uma longa reportagem investigativa feita por Caco Barcellos em 1996. Daí eu entendi a pergunta feita de forma ingênua por meu antigo companheiro de farda ao sargento. Ele viu alguma coisa dessa reportagem quando ela foi exibida.
A realidade histórica, os fatos não podem ser negados com discursos ou palavras propositalmente escolhidas para construir uma outra história.
Os alemães assumiram com dor e com dignidade a história das atrocidades do nazismo e do holocausto. Assumiram e não negaram a história. Não forjaram discursos para se justificar. Não escolheram palavras para reconstruir de forma perversa a História recente de seu país. Eles não privam as novas gerações dos fatos, mas permanentemente, por meio da educação as conscientizam.
Numa data como hoje, dia do golpe militar, infelizmente, ainda se negam os fatos (os passados e os presentes, até mesmo os que acabaram de ocorrer) por meio de discursos e de frases que inflamam as emoções, manobram com as indignações (muitas vezes legítimas), impulsionam o ódio contra governos anteriores, contra a imprensa, contra a ciência, contra as universidades, sempre por meio de um moralismo religioso oco para esconder o horror que ninguém pode saber: o quanto são insignificantes e incompetentes.

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