31 de outubro de 2008

Alá e a crise americana

Recentemente, assisti novamente o filme de Michael Moore Fahrenheit 9/11. Ainda que este cineasta seja acusado de ser exagerado nas abordagens que faz (coisa que não concordo), talvez Moore seja um dos poucos americanos lúcidos do planeta (isso sim é um exagero). Numa sociedade que acredita em tudo o que é noticiado pela TV (ex. os EUA foram os campeões no quadro de medalhas nas Olimpíadas de Pequim, segundo a NBC ?!?!), Michael Moore caminha na contra-mão dessa sociedade. Parece que os americanos simplesmente não sabem o que realmente acontece nem no mundo e nem no seu próprio país (bem, nós brasileiros também não). Mas lá parece haver uma alienação, aqui é ignorância mesmo.

O que eu quero dizer é que parece existir um ufanismo tão grande que cega qualquer análise mais crítica sobre o que se passa. Afinal, o mundo não me interessa se tenho minha casa, meu carro e meu cartão de crédito que me faz consumir e "ser feliz". O acelerado crescimento econômico dos EUA no pós-guerra e a sua indiscutível supremacia em todos os setores potencializaram essa visão da sociedade americana cada vez mais voltada sobre si mesma. Ora, se somos fantásticos e não precisamos de ninguém, por que saber o que se passa no mundo? "Meu presidente cuida disso, da mesma forma como cuida de nós, bons cidadãos patriotas..."

Pois é, mas com a crise o mundo de fantasias está desmoronando. Penso na quantidade de americanos atônitos, perplexos... Se o que sempre imperou no cidadão foi a visão de mundo de um Estado poderoso, bajulado pela mídia, torna-se difícil a compreensão real dos fatos. Talvez seja por isso que Michael Moore seja tão odiado ou simplesmente ignorado por grande parte da população americana. Ele é um antipatriota!

Mas o que eu queria dizer mesmo é que, Fahrenheit 9/11 hoje prenuncia a crise, ainda que não fale dela. Nele vemos um presidente empossado sem ser eleito, preocupado em atender aos interesses das indústrias petrolíferas, armamentistas e das grandes construtoras às quais está ligado. Vemos um presidente que pensa poder resolver os problemas do mundo gastando bilhões numa guerra sem sentido atacando até hoje um falso inimigo. Hoje, Bush é um presidente sem poder e sem condições para lidar com os problemas internos, que rapidamente se tornaram problemas do mundo todo. Hoje, ele não é mais poderoso (na verdade nunca foi) e conta os dias para deixar a Casa Branca e voltar logo para o seu rancho. Dá pena...

O que me impressionou muito revendo o filme foram as palavras de uma iraniana que após um bombardeio, enquanto um homem tinha nas mãos uma criança toda ensangüentada e morta, gritar aos prantos: "ALÁ VAI DESTRUIR A CASA DE VOCÊS!!!" Ouvir isso num momento em que os americanos perdem suas casas e passam a viver nas ruas, dá até medo! Que profecia, heim?

19 de outubro de 2008

Cidadania: muito falada, pouco compreendida

Cidadania é uma daquelas palavras que sempre sai da boca de alguém com sentido já gasto. É palavra boa para discurso, embora nem sempre se saiba do que se trata... Talvez seja por isso que ela é tão usada! Ainda mais em época de eleição, cidadania aparece em todas as mídias, em discursos de políticos, em aulas e em conversas decomprometidas. Mas afinal, o que podemos entender por cidadania?

Bom, cidadania não é algo simplesmente; mas é uma coisa que acontece (ou deve acontecer). Trata-se de um exercício, de uma prática do indivíduo em sociedade. Mas não de qualquer prática! É a prática dos direitos mínimos tidos como essenciais para a sociedade, cujo resultado é a melhoria da própria sociedade e, conseqüentemente, do indivíduo que é parte dela. Assim, exercer a cidadania é gozar de alguns direitos que, no caso da sociedade brasileira, estão contemplados na Constituição Federal de 1988. Que direitos são esses? Cito alguns a partir dos artigos da Constituição:
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
I - homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição;
II - ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei;III - ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante;
IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;
V - é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem;
VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias; (segue uma série de outros)
Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.

Então, a cidadania acontece quando todos esses direitos são garantidos pelo Estado a todos os brasileiros. Como isso não acontece (já que não temos saúde e educação pública decente, por exemplo), não podemos dizer que a cidadania é plenamente vivida na sociedade brasileira. Aliás, a maioria esmagadora da população está excluída da cidadania.