30 de julho de 2008

A conversão de Constantino

Veja só que intrigante. Diz a tradição que Constantino se converteu ao cristianismo após avistar nos céus da Gália uma cruz e uma inscrição que dizia: "Neste sinal, conquistai". Ele estava em luta com seu oponente Maxêncio. Constantino mandou fazer estandartes com o sinal da visão, além de pintá-lo nos escudos de seus soldados. Maxêncio foi derrotado na Ponte Mílvia, o que motivou a conversão de Constantino em 312.

Mas a sua conversão foi realmente sincera ou foi mais uma manobra política para atrair os cristãos para o seu lado? Ele foi um cristão convicto ou um oportunista?

É claro que é muito difícil saber... Constantino foi batizado no seu leito de morte em 337. Isso seria um argumento para questionar suas convicções a respeito da fé cristã. Porém, isso era muito comum nos primeiros séculos do cristianismo. Muitas pessoas adiavam o batismo para não correr o risco de cometer um grande pecado mortal e perder a vida eterna. Adiar o batismo significava, num certo sentido, não se comprometer totalmente com as palavras do Evangelho usufluindo dos prazeres do mundo.
Também não dá para acreditar que desde 312 Constantino tenha se aderido ao cristianismo com sincera convicção. Alguns estudos dizem que de 312 até 324 (um ano antes do Concílio de Nicéia) ocorreu uma evolução religiosa do imperador. Ele foi muito prudente em não negar de imediato o paganismo adotando fórmulas religiosas que pudessem ser aceitas tanto pelos cristãos, quanto pelos seguidores da religião romana. Também é possível dizer que Constantino, ao contrário de seus antecessores, percebeu que em meio às crises de um Império desacreditado pelos seus súditos, seria muito oportuno aproximar-se de uma instituição cujos líderes gozavam de grande prestígio e inspiravam confiança.
Então, é muito difícil avaliar as motivações interiores de Constantino em relação ao cristianismo. Porém, é bem provável que ele aceitou definitivamente uma nova fé após um lento processo de evolução religiosa, não desprezando de imediato as vantagem políticas e sociais que o acolhimento dos cristãos à vida civil do Império traria.

16 de julho de 2008

A sociedade do fone de ouvido

Trata-se de um mundo bem estranho. Nesta sociedade cada um ouve apenas o que lhe interessa, razão do fone. As pessoas ficam profundamente aborrecidas quando alguém tenta falar com elas, pois precisam tirar o fone do ouvido, ouvir novamente e responder ao que foi dito. Geralmente, respondem bem rapidamente e voltam a pôr o fone. Somente falam com alguém quando precisam de alguma coisa que não podem resolver sozinhas. Ninguém compartilha nada... nem alegrias, nem sonhos, nem tristezas, nem angústias. Nessa sociedade os pais desconhecem os filhos (não falam com eles, que sempre estão com o fone no ouvido). Já os filhos não possuem amigos (somente virtuais). Muitos vivem à base de antidepressivos e acham normal, como chupar bala.

Na sociedade do fone de ouvido muitos já desaprenderam a conversar, perderam a prática, não estão mais acostumados. Ficam com o fone o dia todo, e alguns, precisam do fone tocando alguma coisa para conseguir dormir.

Na sociedade do fone de ouvido muitos desconhecem o silêncio tão salutar para refletir e conhecer. Todos nesta sociedade pensam saber muito, mas desconhecem a si mesmos.

13 de julho de 2008

Debate entre Lula e Collor

Por esses dias pude assistir o segundo debate entre Lula e Collor para as eleições de 1989. Naquela época eu tinha 12 anos! Agora, nos meus 30 anos, foi tão difícil crer que aquele debate realmente tenha ocorrido daquela maneira... Revendo-o, parece mais algo fantástico, coisa criada pela imaginação humana. E, de certa forma, não foi? Pior que foi...
Penso que se o Lula tivesse vencido em 1989, certamente sofreria um golpe. Mesmo assim, revisitar todo o esforço nacional (e internacional), de gente endinheirada e importante para garantir a vitória de Collor da forma mais inescrupulosa possível, fez-me pensar: "Como isso pode acontecer? Não, não posso crer que realmente foi assim..." E foi! Alguém se lembra do jornalismo de baixo nível da Rede Globo quando ela fez a edição do debate no Jornal Nacional salientando os piores momentos de Lula e os melhores momentos de Collor, dando um tempo muito maior de exposição ao colorido?

Agora é possível ver o debate que a própria Rede Globo disponibilizou na íntegra. Muito interessante o empenho dos jornalistas em associar a queda do muro de Berlim com a eleição do Lula, que seria o representante do socialismo que caiu com o muro.
E o Collor? Parecia bem "sabedor" do que seria perguntado. Discurso pronto, impecável... E nem por isso sua argumentação não deixou de ser patética e apelativa (suficiente para assustar o povão e para tranqüilizar a elite). Disse que Lula defendia a luta armada, a invasão de terras produtivas, a invasão de casas e apartamentos (meu Deus, ele disse isso). Disse que para Lula, todos aqueles que não concordam com suas teses devem ser condenados (!!!) Lula iria se apropriar dos bens privados. Ops!!! No entanto, foi Collor que confiscou a caderneta de poupança.

Pois é... O Brasil elegeu o presidente bonitinho (quantas mulheres não votaram nele por isso?) ao invés do barbudo. E como Collor não possuía competência administrativa e muito menos um projeto político consistente e eficaz, para desviar a atenção da mídia e do povão, se portou como super-presidente. Imitava o Tarzan, lutava karatê, andava de jet-sky, fazia ginástica, pilotava caça da FAB, corria pra lá e pra cá com mensagens na camisa... Que patético... Enquanto isso a lambança e a corrupção corria solta. E quando a coisa complicou pra valer, passaram fogo no PC Farias (que sabia demais) e forjaram um crime passional!?!?!?
Hoje, nada disso parece verdadeiro... Lembra mais um roteiro de filme americano de quinta categoria com aqueles atores que ninguém conhece (tipo Super Cine).

Ah! Se alguém quiser acompanhar o debate é só CLICAR AQUI

7 de julho de 2008

Mulheres modernas e o ponto cruz

Minha esposa me fez observar um coisa interessante que parece acontecer cada vez mais, embora não seja uma lei geral. O mundo ainda é dos homens. Porém, o século XX é marcado por grandes conquistas femininas, apesar de muitas mulheres ainda não serem tratadas com a dignidade que merecem.

Penso em um caso específico: a conquista das mulheres no mercado de trabalho. É bem verdade que isso ocorreu para substituir os homens que foram para guerra. Além disso, as mulheres que sempre trabalharam mais (em casa), diante das dificuldades econômicas, tiveram de sair cumprindo jornada dupla. Estas mulheres, que sempre foram mais exploradas que os homens, podem ser exemplos de vida para muita gente.

Porém, penso naquelas poucas mulheres, de número cada vez mais crescente, que estudam, se formam, escolhem sua profissão e tentam se realizar nela. Conseguem um bom emprego e até assumem cargos de direção com salários que nenhum professor vai ganhar na vida. Elas ocupam funções que antes eram restritas ao universo masculino, provando que podem fazer tudo que os homens fazem e, não raro, melhor que eles.

Até aqui nenhuma novidade. Pois bem. Muitas dessas mulheres modernas, sinônimas de vida "bem sucedida", sonham com a vida de mulher normal!!! Muitas não suportam o trabalho que fazem e se queixam por não conseguir ficar mais em casa cuidando dos filhos. Querem mais tempo para comprar panos, costurar, bordar, fazer roupas para bonecas...

Que coisa!!! As filhas e as netas daquelas que queimaram soutiens adoram bordado e máquina de costura, como suas tataravós no século XIX!!!

4 de julho de 2008

Professor: profissão perigo

Esta postagem não é sobre o Magaiver.
Hoje, uma professora que eu conheço foi ameaçada de morte por uma mãe de aluno. O que ela fez? Humilhou a criança? Bateu no pobre aluno num surto de descontrole? Nada disso... Ela apenas ligou para a mãe pedindo para que ela comparecesse as 17:30 para conversar sobre o filho. A digníssima respondeu assim: "Eu vô na hora que eu querê!!!" - ou seja, ninguém manda em mim, certo?

As 18:20 a finíssima senhora compareceu e, evidentemente, não foi atendida prontamente, pois a professora cuidava da saída dos alunos. Ela pediu para a mãe esperar, que interpretou o fato como uma grande afronta. Então, com toda a delicadeza, a senhora partiu para cima da professora que teve de se trancar dentro da sala para não apanhar. Do lado de fora, a cidadã berrava os piores impropérios do mundo chutando a porta. Não podia faltar o clássico "vô te pega lá fora" (ah, os alunos da 1a série acompanhavam tudo de camarote... que privilégio, heim?)

A professora precisou sair escoltada pela polícia até a delegacia. Lá, apareceu um outro filho para levar os documentos da mãe (ambos com uma bela ficha). É claro que o cidadão, que comanda o pedaço, encarou a professora deixando claro qual seria sua sentença.

Agora, ela não pode trabalhar. Em uma atitude muito solidária o diretor da escola disse: "Você tinha que retirar a queixa. Quem mandou você não ter paciência com a mãe? Agora, todo mundo corre risco".

Você gosta de aventura? Emoções fortes? Então, seja professor!!!

3 de julho de 2008

As termas romanas e o banho nosso de cada dia

Minha professora de Paleografia dizia que quando era estudante na França, o aluguel que ela pagava na pensão era bem maior que o cobrado das moças de outros países. A dona da pensão dizia – horrorizada - que os estudantes brasileiros tomavam banho todos os dias!!! Portanto, gastavam mais.
Sabemos que o hábito do prazeroso chuveirinho quente diário foi herdado dos índios que se banhavam muitas vezes nos rios. Imaginem a inhaca que os indígenas sentiram quando Cabral desembarcou no litoral brasileiro...
Talvez isso seja explicado pelo fato de morarmos “num país tropical abençoado por Deus”. Já o clima lá na Europa... Então, banhar-se não parece um costume muito caro para eles.
Mas, e os banhos públicos nas termas romanas? Os romanos eram mais higiênicos que os seus sucessores?
Na verdade, os banhos faziam parte de um dos muitos prazeres públicos que os romanos jamais abriam mão. Segundo o historiador Paul Veyne, “o banho não era uma prática de higiene, e sim um prazer complexo”. As termas eram instalações grandiosas com água fria, quente, vapores, espaço para esporte e jogos. Todos podiam desfrutar, inclusive os pobres, pois se pagava muito pouco. Geralmente, os homens e as mulheres ficavam em salas separadas. Em síntese, uma terma era um estabelecimento para o prazer. Ela representava um estilo de vida desejado por todos. As termas de Caracala eram climatizadas. As pessoas buscavam calor num espaço, cuja arquitetura, segundo Veyne, lembrava um “palácio de sonhos”. Nela qualquer pessoa podia se sentir em um ambiente real, desfrutando da boa vida. Era um espaço para encontrar pessoas, fofocar e se exibir.
Já aqui em casa, quando se fala em banho, o Francesco grita e sai correndo...